Primeiro: tem tratamento
Receber o diagnóstico assusta, e é natural pensar logo na cegueira. Mas a catarata é uma das poucas causas de perda de visão em cães que têm tratamento de verdade: a cirurgia remove a lente opaca e coloca uma lente artificial no lugar.
Nos grandes centros de oftalmologia veterinária, a cirurgia devolve a visão a longo prazo em 80 a 90% dos cães operados. Quando ela é feita cedo, antes de a catarata amadurecer, o sucesso pode chegar a cerca de 95% em casos bem selecionados.
Ou seja: a pergunta mais importante não é se tem jeito. É em que fase está a catarata do seu cachorro, e qual é o melhor momento para agir.
O que está acontecendo no olho dele
Dentro do olho existe uma lente, chamada cristalino. Ela fica atrás da íris (a parte colorida) e tem uma função simples: focar a luz na retina, que transforma a imagem em sinal para o cérebro. Para isso, ela precisa ser transparente.
Catarata é qualquer opacidade nessa lente. Ela pode começar como um ponto pequeno, que nem atrapalha a visão, e crescer até tomar a lente inteira. Quanto mais opaca a lente, menos luz chega à retina, e é por isso que a visão vai embora aos poucos.
Em casa, os sinais costumam aparecer nesta ordem: o centro do olho fica esbranquiçado, azulado ou acinzentado; ele começa a esbarrar em móveis, principalmente no escuro ou em lugares novos; hesita antes de pular do sofá ou de descer escada; erra o petisco jogado para ele.
É catarata ou é a idade?
Nem todo olho azulado é catarata. Com a idade, é comum o cão desenvolver a esclerose nuclear: a lente fica mais densa e ganha um tom azul-acinzentado, mas continua deixando a luz passar. É uma mudança normal do envelhecimento e não cega.
A diferença a olho nu engana até tutor experiente. Quem separa uma da outra é o exame com luz e lente de aumento, feito pelo oftalmologista.
Ele vai ficar cego?
Muitas cataratas avançam, e não é possível presumir que vão ficar estáveis. Elas passam por quatro fases, e cada uma pede uma conduta diferente:
Incipiente. Um ponto ou uma área pequena da lente. A visão quase não muda, e o tutor raramente percebe.
Imatura. A opacidade cresce, mas ainda passa luz. O cão enxerga pior, sobretudo no escuro. É a melhor fase para operar.
Madura. A lente inteira fica opaca e o olho deixa de enxergar. A cirurgia ainda é possível, mas o risco de complicação sobe.
Hipermadura. A lente começa a se desfazer e vazar proteínas dentro do olho. É a fase que mais inflama e a que tem pior prognóstico.
O risco não é só a cegueira. A catarata avançada provoca uma inflamação dentro do olho, a uveíte induzida pelo cristalino, que pode levar a glaucoma, deslocamento da lente e descolamento de retina. Nos casos mais graves, o olho perde a visão e o conforto, e pode ser preciso removê-lo. Por isso, mesmo quando a cirurgia não é o caminho, o olho com catarata precisa de acompanhamento.
Não sabe em que fase está a catarata dele?
A consulta responde isso, e diz se ele é candidato à cirurgia.
Agendar avaliaçãoColírio resolve?
Não existe colírio, suplemento ou remédio que dissolva a catarata. A lente opaca não volta a ser transparente.
O colírio tem outro papel: controlar a inflamação que a catarata provoca, para proteger o olho enquanto a cirurgia não acontece, ou quando ela não é indicada. É um cuidado importante, mas não devolve a visão.
Os números mostram a diferença. Num estudo com cães diabéticos, 94,8% dos operados enxergavam na última consulta. Entre os tratados só com colírio, 7,6% recuperaram alguma visão.
Por que aconteceu
É comum o tutor se perguntar se fez algo errado. Na grande maioria dos casos, não. As causas mais frequentes são:
- Herança genética. Algumas raças têm predisposição hereditária, e a catarata pode aparecer ainda em cães jovens.
- Diabetes. É a causa que mais corre. Metade dos cães diabéticos desenvolve catarata nos primeiros seis meses depois do diagnóstico. Leia sobre diabetes e catarata.
- Idade. Com os anos, a lente perde transparência. Não confunda com a esclerose nuclear, que é outra coisa.
- Outras doenças do olho. Inflamação crônica (uveíte) e doenças da retina podem levar à catarata.
- Trauma. Uma pancada ou um ferimento no olho.
- Nutrição de filhotes. Filhotes órfãos alimentados com substituto de leite podem desenvolver catarata.
Saber a causa ajuda a decidir. A catarata da diabetes, por exemplo, avança rápido e pede pressa; a de um cão idoso pode estar evoluindo há anos.
Como é a avaliação
Antes de falar em cirurgia, é preciso saber duas coisas: se o olho tem condição de voltar a enxergar, e se o cão tem condição de passar pela anestesia. A triagem responde as duas.
- Exame oftalmológico completo, com medida da lágrima e da pressão dentro do olho.
- Eletrorretinograma. Avalia se a retina, atrás da catarata, está funcionando. Se a retina não funciona, tirar a catarata não devolve a visão.
- Ultrassom do olho. Mostra a lente, a retina e o líquido atrás da lente, que a catarata esconde do exame comum.
- Exame clínico e de sangue, para conferir a saúde geral antes da anestesia. Em cães diabéticos, entra também o controle da glicemia.
É essa triagem que dá ao seu animal a maior chance de sucesso possível. E ela também protege: quando os exames mostram que a chance de boa visão é baixa, a cirurgia não é indicada.
Operar ou esperar
Por muito tempo se disse que era preciso esperar a catarata amadurecer. Em cães, é o contrário: quanto mais cedo a cirurgia, maior a chance de sucesso. A catarata madura e a hipermadura inflamam o olho, deixam a lente instável e aumentam o risco de glaucoma e descolamento de retina depois da cirurgia.
Isso não quer dizer que todo cão com catarata deva ser operado. A decisão depende da fase, do resultado da triagem, da saúde geral do animal e da rotina da família, porque o pós-operatório pede colírios várias vezes ao dia e retornos ao longo dos meses.
Quando a cirurgia não é indicada, o caminho é controlar a inflamação e acompanhar o olho de perto, para mantê-lo saudável e confortável.

Como é a cirurgia
A técnica é a facoemulsificação, a mesma usada em pessoas. Com o cão anestesiado e sob microscópio cirúrgico, o cirurgião faz uma abertura pequena no olho, fragmenta a lente opaca com ultrassom e aspira os fragmentos.
No lugar dela, implanta uma lente intraocular, que passa a focar a luz na retina. A catarata não volta: o que pode acontecer, com o tempo, é uma leve opacidade na cápsula que segura a lente nova, que raramente atrapalha a visão.
Na OLHOVIVO, a cirurgia é feita em uma tarde. A visão pode estar um pouco embaçada nos primeiros dias e vai clareando com o tempo.
Os meses depois
O resultado da cirurgia depende muito do pós-operatório, e ele é feito em casa, pelo tutor:
- Colírios. Vários tipos, de duas a quatro vezes ao dia nas primeiras semanas, com a frequência diminuindo aos poucos ao longo dos meses.
- Colar elizabetano. Por pelo menos duas a quatro semanas, para ele não coçar nem esfregar o olho operado.
- Repouso. Sem corrida e sem brincadeira agitada nas primeiras semanas.
- Retornos. As revisões começam logo depois da cirurgia e vão se espaçando ao longo dos meses.
Depois disso, o olho operado segue com exame periódico pela vida toda. Algumas complicações, como glaucoma e descolamento de retina, podem aparecer meses ou anos depois, e o acompanhamento é o que permite pegá-las cedo.
Perguntas frequentes
Catarata dói?
A catarata em si não costuma doer. A inflamação que ela provoca, quando avança, pode incomodar, e é um dos motivos para não deixar o olho sem acompanhamento.
Meu cachorro é idoso. Ainda pode operar?
Idade não é doença. Quem decide é a triagem: os exames mostram se o olho e o cão estão em condição de passar pela cirurgia.
Gato também tem catarata?
Tem, e a cirurgia também é feita em gatos e em outras espécies. Cães são a maioria dos casos.
A catarata pode voltar depois da cirurgia?
Não. A lente opaca é removida. Com o tempo, pode surgir uma leve opacidade na cápsula que segura a lente nova, que raramente atrapalha a visão.
Moro em outra cidade. Como faço?
Recebemos tutores de todo o Brasil, e a cirurgia é feita em uma tarde.
Fontes: Ohio State University Veterinary Medical Center, Cataract Surgery (2022); Cornell University College of Veterinary Medicine, Canine Cataracts; dvm360, Cataract surgery in veterinary medicine today; Beam e colegas, Veterinary Ophthalmology (1999); estudo retrospectivo de facoemulsificação em catarata diabética, Journal of Veterinary Science (2023). Este guia é informativo e não substitui a consulta.
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